Ourique FM

D. João Marcos, "Um Bispo do povo", à conversa com a Rádio Ourique

21/11/2016

"(..)Sou um padre normal, como o povo, eu sou pintor!(...) "

D. João Marcos, o novo Bispo da Diocese de Beja, aceitou receber a Rádio Ourique na Casa Episcopal. Para uma conversa sem temas proíbidos, e onde as novas dinâmicas da Igreja estiveram em foco.

 

Um homem simples, do povo, como gosta de se classificar. Filho de agricultores, pintor, e com uma admiração à Igreja que o Papa Francisco quer erguer. 

 

Falou-se da sua nomeação, da sua conversa com Papa Francisco, do ambiente, da política, da fé dos homens, da redenção, da misericórdia, das mulheres no Sacerdócio e dos seus hobbies.

 

A conversa fluiu, sem pressas, mas sempre com rigor intelectual, característico dos homens que pensam.

 

Fica então a transcrição de uma entrevista sem filtros, pela voz do Sr. Bispo D. João Marcos. 

 

 

Olá boa tarde, é um prazer estarmos com o novo Bispo da diocese de Beja, D. João Marcos, é um prazer aceitar o nosso convite para a Rádio Ourique e conversarmos sobre a Igreja Católica, a relação dos jovens com a Igreja , e a relação do Alentejo com a Igreja Católica.

 

 

Como têm sido os seus primeiros dias enquanto Bispo? Bem, têm sido no seguimento dos outros dias anteriores, ou seja, já no mês passado o D. António Vitalino não esteve cá, teve de andar fora, e eu fiquei à frente de tudo, como já noutras ocasiões tinha acontecido. Agora é só continuar.

 

Que função tem um Bispo na diocese e no Baixo Alentejo? Qual é o seu dia-a-dia e que trabalho executa? Muito bem, então… O meu dia-a-dia mais ou menos é assim: levanto-me de manhã, rezo, é importante a oração na vida dos cristãos e também dos pastores e do Bispo, depois da oração da manhã temos missa aqui na capela, há sempre um grupo de vinte pessoas que está presente, vêm aqui da cidade. Portanto há a missa, a seguir à missa o pequeno-almoço, depois do pequeno-almoço costumo dar uma voltinha ali pelo quintal para ver que tal está o tempo e como estão as plantas, gosto muito desta ligação à terra, sou filho de agricultores, depois vou responder ao correio, aos emails etc… Resolver assuntos, atender pessoas que pedem audiência, e passa-se o dia praticamente nisto. Escrever textos, conferências, sei lá… Há sempre mil coisas para fazer deste género.

 

Como é que considera ser a relação dos alentejanos e dos baixo alentejanos em específico, com a fé, com a espiritualidade? Bem, já se disse e é um lugar-comum dizer isso, não sei até que ponto vai continuar a ser com esta gente nova, porque entretanto entram no caldeirão ou na caldeirada elementos que antes não entravam. Mas o alentejano é naturalmente religioso, portanto, agora o problema é que essa religiosidade que usa os rituais cristãos não é especificamente cristã ou seja, é uma religiosidade que não foi propriamente evangelizada em muitos casos, não quer dizer que não tenha valor, não quer dizer que não valha. Eu às vezes faço uma comparação que me parece útil, é como o bacelo bravo que dá muitas folhas mas não dá fruto, portanto, é preciso ser enxertado. O cristianismo é uma espécie de enxertia dessa religiosidade natural, e portanto, penso que no Alentejo se tardou em se fazer, e não se chegou a fazer lá muito bem ao longo dos tempos.

 

Então está a dizer que há pouca relação entre os rituais cristãos e a doutrina católica? As pessoas cumprem os ritos mas não seguem a doutrina? Não a conhecem.

 

E isso é um problema só do Alentejo ou de todo o país? É cada vez mais do país todo. Os ventos da globalização não favorecem a evangelização cristã, como se sabe, o cristianismo hoje é visto por bastante gente, que se tem por progressista, como um atraso de vida, uma coisa passada, que já deu o que tinha a dar, e que é necessário superar isso. É necessário, enfim… assumirmo-nos como adultos e deixar esses infantilismos todos para trás. Porque é assim que muita gente vê a religião. Só que esses que vêm assim realmente não sabem o que está aqui. Costuma-se usar também uma comparação que eu acho curiosa. Deita-se a criança juntamente com a água do banho fora, sem distinguir realmente que há ali uma criança. Há ali algo realmente muito importante, não é só água suja, não é…

 

E qual é que acha que seja a relação dos jovens com a igreja católica e com a doutrina? Há de tudo. Nas paróquias onde estive há muitos jovens que conheceram o cristianismo e que o levam muito a sério, como tudo o que ele representa, não só a prática litúrgica, a oração, mas também a vida moral, sexual, familiar, etc… Porque veem que o cristianismo é um deslumbramento, ou seja, o problema hoje de muita gente que não foi evangelizada, é que vê aspetos do cristianismo soltos, mas não sabe liga-los, vê fragmentos e não vê o todo. Esse penso que é o grande problema das pessoas. Eu concretamente aqui em Beja, estou a orientar dois grupos de preparação para o batismo, de adultos e jovens. E sempre acontece o mesmo, à medida que vamos apresentando o cristianismo a partir do seu núcleo mais central, não a partir de fora para dentro, mas de dentro para fora, surge sempre este deslumbramento… Perante o mistério de Deus, perante o mistério da vida, etc….

 

Mas não acha que a doutrina por vezes pode estar codificada para quem a quer perceber? Bem, que esteja codificada é bom, e é normal.

 

Não considera ser de difícil acesso? Há aí duas coisas, por exemplo em dois aspetos, por um lado a linguagem bíblica é aquela, nós não podemos por muito que nos custe, não podemos deitar fora aquelas expressões básicas que hoje para muita gente não significam nada, ou quase nada, como o reino de Deus, como a vida eterna, etc… Portanto há que inventar maneiras de traduzir isso em linguagem atual para as pessoas, isso é uma coisa óbvia, mas também é necessário de parte das pessoas que haja uma iniciação a essa linguagem, tem de haver dois movimentos, e a igreja pode fazer isso, e tem feito ao longo dos séculos, e agora também pode fazer. O nosso problema aqui está sobretudo nisto, nós herdámos um cristianismo muito ideológico, muito doutrinal, porquê? Porque no séc. XVI as pessoas tinham uma vida cristã, mas eram ignorantes, não sabiam ler, escrever etc… Então desde o séc. XVI até agora havia sempre muito isto, é necessário ensinar as pessoas, ensinar, ensinar… Para lhes dar aquilo que lhes faltava, agora ensinamos, ensinamos… Mas as pessoas já não têm aquela base de vida cristã que tinham antes, portanto, estes ensinamentos são outra base. É como sementes sem terra, o que está a acontecer hoje é um bocadinho isso. Há um desajustamento entre os métodos pastorais, e também, a realidade das pessoas.

 

Os jovens têm causas que os identifica e que defendem muito, uma delas é a preocupação pelo aquecimento global e as mudanças climáticas. O Papa Francisco fez há dois anos uma encíclica “Laudato Si”, louvando o planeta e apelando à preservação do mesmo, concorda? E poderia explicar um pouco mais o que é que a encíclica papal constituiu? A partir dessa porta de entrada que me dá, digamos que o Papa diz o que toda a gente que está um bocadinho consciente diz. A novidade dessa carta, novidade digamos, não para nós cristãos, sobretudo para quem está um bocadinho de fora, está nisto, é que há uma ecologia global que começa em nós próprios. Há um cosmos, há um macro cosmos, há um micro cosmos, e as coisas correspondem-se… Ou seja, uma ecologia do cosmos sem uma ecologia do micro cosmos, que é o homem, não funciona. Porque aquilo que hoje está a degradar e a destruir a natureza o que é? É a ganância do homem, basicamente.

 

E o que tem a dizer aos evangélicos americanos que acham que o homem não é grande o suficiente para influenciar o clima? Nós somos pequenos e grandes, hoje temos meios para fazer o bem e o mal como nunca tivemos! Portanto, aquilo que dizia a Madre Teresa, “eu sou uma gotinha de água, mas o mar sem esta gotinha de água é mais pequeno” é uma maneira poética de dizer as coisas. Mas é verdade é: eu estou aqui nesta diocese, mas eu não o salvador do mundo, eu não sou o salvador desta diocese. Agora, é evidente, que se eu amar esta diocese, amar estas pessoas, se eu me dedicar a elas, eu posso fazer qualquer coisinha para ajudar esta gente. Se eu me baldar, se eu for ali para o meu ateliê, pegar nos meus pinceis, e fazer as minhas pinturas e ficar-me nas tintas para o resto… para as pessoas… para os seus problemas… eu aí, não só, não ajudo, mas desajudo. Portanto, nós não devemos, a meu ver, nem engrandecer um pouco o que somos, nem minimizar. Somos o que somos! Repara, quem era S. Francisco de Assis? Era um homem, no entanto, aquele homem cheio do espírito de Deus fez uma onda gigante no mundo que ainda hoje continua. Portanto, a questão está aí, aquilo que transforma verdadeiramente o mundo não são os grandes homens, nem os grandes políticos! Hoje as pessoas estão muito preocupadas com a eleição do novo presidente dos Estados Unidos, por ele ser isto ou fazer aquilo. Ele é apenas um homem. Há nos Estados Unidos pessoas muito mas poderosas do que ele, muito mais poderosas… Ter um poder executivo não significa ter todo o poder. Penso que não podemos ser rapidamente pessimistas.

 

Acha que há uma obrigação para os praticantes e para a igreja católica de se envolver na política, e tentar fazer o mundo um pouco mais cristão, um pouco mais à imagem de Jesus Cristo? Sente que há essa obrigação ou cada um pode desenvolver a sua cristandade de uma maneira pessoal sem se preocupar muito em termos societais? Se nós acreditamos no evangelho é evidente que sim! Se eu tenho uma coisa boa, que é boa para mim, e que sei que é boa para os outros, porque é que hei-de fechar-me com essa coisa só para mim? Outra coisa é ver isto na perspetiva de conquistar o poder. Na igreja durante algum tempo, sobretudo também como reação a todos estes tempos da cristandade, é verdade que muitos católicos pensaram que era melhor não se meterem na política, e fazerem apenas ao seu nível as coisas que haviam de fazer. Mas eu estou convencido e o Papa tem-no repetido muitas vezes e os Bispos portugueses também, que é importante que haja gente na politica que está por vocação, que está por amor às pessoas, que não está apenas para ganhar o seu, ou para fazer o seu brilharete. Não! Há gente ali, se calhar não são tantos como deviam ser, mas há gente que está para servir verdadeiramente o povo.

 

O que achou da ação política do Papa Francisco no estreitamento de relações com Cuba e os Estados Unidos, foi algo invulgar de se ver num Papa? E concorda com essa atividade papal? O que o Papa Francisco está a fazer a nível político é uma linha iniciada já por João XXIII e depois muito, muito desenvolvida por João Paulo II. Portanto a esse nível o Papa Francisco penso que, não está a fazer nada de novo. Nós somos católicos, não é fácil ser católico. Católico quer dizer, ter um coração universal, sem fronteiras, como é o coração de Deus! E portanto, um Homem católico, um Padre católico, um Bispo católico, não pode ter um coração partidarizado, fragmentado. Eu sou argentino, eu quero bem à Argentina, detesto os brasileiros que são nossos inimigos. Isso é impossível, não é assim.

 

Então o coração de um católico é global? É, se é católico! O problema também está nisto, é que hoje, a meu ver, por burrice, tem-se visto muito isto do católico como um rótulo que fragmenta, e não como um mar que é oferecido a todos os charcos e rios que existem por ai.

 

Que avaliação é que faz do trabalho do Papa Francisco? Acha que está a causar uma rotura dentro das estruturas de poder na igreja católica? Bem, quem está na igreja católica por poder e há gente, não digo que não, que não grama o Papa Francisco nem um bocadinho, porque este homem é completamente livre em relação a essas coisas, como sempre foi! Já antes de ser Papa. Quem está por ai, com essa ideia de poder, está fora do baralho nitidamente! Portanto, eu acho que o Papa Francisco é um profeta, ele é um homem admirável, que tem uma liberdade imensa, tem uma inteligência também muito grande, que lhe permite realmente ver muito para além daquilo que nós habitualmente vemos. Eu quando estive com ele no ano passado, em Roma com os outros Bispos dei-me conta disso. É um homem muito próximo das pessoas, mas realmente tem uma visão muito perspicaz, muito longe, muito mais longe do que o comum das pessoas vê. E tem esse coração imenso, porque a vida dele não é um teatro que ele ensaia. Ele vive, assim como é. E portanto os gestos que cativam as pessoas, os gestos que ele tem em relação a toda a gente, nomeadamente aos mais fracos, são espontâneos! Sai do coração! Lembro-me de ele ter dito uma vez… Creio que na viagem a Israel, que devia haver ali um gesto qualquer, mas o quê? “Ahh, logo vejo o que é que me sai”. Ou seja, é uma pessoa que não representa, vive! Apresenta-se como é, no que tem dentro. E é evidente, para quem está noutros comprimentos de onda, que é complicado. Eu pessoalmente tenho uma estima muito grande por ele. Há, no entanto, uma coisa que me custa. Custa-me que ele me tenha feito Bispo! Tirando isso acho que é um homem admirável. Tive de aceitar, ninguém me obrigou, sou livre. Mas como as coisas me foram colocadas era irrecusável. Este Papa quer bispos que não venham propriamente das elites intelectuais etc… Mas que venham do povo.

 

Quando é que lhe foi colocada a proposta pelo Papa?

Portanto, isto foi… fez agora em Outubro dois anos, foi no dia 7 de Outubro.

 

E que palavras é que foram usadas? Pode-nos contar um pouquinho mais dessa decisão e desse momento?

Claro! Bem… Estava no seminário dos Olivais, onde morava, e recebi um telefonema do Senhor de Núncio Apostólico a dizer: “Senhor Conde quer vir tomar um cafezinho comigo?! Às onze horas pode estar aqui na nunciatura?!” Eu disse está bem, está bem… Bem lá fui, mas já ia assim: “Mau, um cafezinho com o de Núncio Apostólico?”. Bem, o que é certo é que, quando cheguei lá, ele disse-me: “Senhor Conde, o Santo Padre quer pôr uma cruz mais pesada a seus ombros… Quer fazê-lo Bispo Conjuntor de Beja!”

Bem, foi um terramoto… Nunca tinha pensado nisto de Beja. Já me tinham dito várias vezes: “Olha, tu prepara-te porque qualquer dia… qualquer dia fazem-te bispo!”. E eu sempre disse: “Não, de modo nenhum! Eu não tenho as qualificações necessárias para isso… Sou um padre normal, como o povo, eu sou pintor! Não sou doutorado em Teologia, nem nada disso! O que é certo é que eu disse ao senhor Núncio: “Nunca na vida eu pensei nisso nem o desejo, e penso que não é bom para as pessoas.”. E ele lutou um bocadinho comigo, e disse-me a uma certa altura: “Acredite nisto esta escolha do Santo Padre é a expressão clara da vontade de Deus a seu respeito”. E diante disto, eu pensei: “Eu estou tramado de qualquer maneira não é? Portanto… se digo que não, renego tudo o que tenho pregado até agora, porque é preciso fazer a vontade de Deus! Se digo que sim, estou tramado…”. Preferi ficar tramado, mas com Deus! E aceitei!

 

E quanto tempo é que levou a tomar essa decisão? Foi instantâneo? Ainda pensou?

Não. Foi naquele momento porque o Núncio disse-me: “Olhe eu não o quero pressionar, mas… tenho de ir a Itália fazer uma operação a um dos olhos…”  e era verdade… “eu tenho de partir brevemente, insisto que o seu assunto ficasse arrumado. Era muito bom.”

Bem eu já noutras circunstâncias me tinham posto assim também… lembro-me do dia em que o Cardeal D.António I me chamou e disse: “Ah João, pensei em ti para ires para Camarate, tens quinze dias para pensar!”. Eu disse: “-O Senhor António pensou nisso a sério?”. “-Pensei!”. “Então está pensado!”. Agora para especificar, assim nestas indecisões, sempre confiei no discernimento de quem tem que mandar.

 

Eu tenho uma grande questão teológica, ela é fácil de resolver e já tive grandes conversas com quem é católico e cristão, e percebe a palavra de Deus. Na Bíblia há duas situações, creio, uma de S. Mateus que nos diz que “O que nos leva aos céus é os trabalhos” e essa de S. Mateus é “quando vês alguém que não conheces e dás uma capa, estás-me a dar uma capa a mim…” Sabe qual é a situação que estou a dizer?

Sim… é o juízo final!

 

Mas há outra corrente, que nos diz: “o que leva ao céu é a fé!” O que é que a doutrina da igreja católica nos diz? Isso é um bocado o problema da reforma luterana, portanto… Lutero tinha os seus problemas, as suas coisas, e era um homem atormentado pelas suas debilidades… E portanto, aquele homem desejava ter paz interior… “mas como é que eu posso ter paz se no dia a dia vejo que sou pecador, que não faço a vontade de Deus?”. Então ele na altura estava a dar a carta aos romanos, e este é o assunto básico da carta aos romanos.

A carta aos romanos é um documento extremamente bem elaborado, há uma carta anterior a essa que é a carta aos Gálatas sobre o mesmo tema, portanto isto foi sendo estruturado na mente de S. Paulo durante muito tempo. E é um bocado isto: O que é a fé? E para o que é que serve a fé? E o tema que ele poem no inicio da carta aos romanos é este: “Eu não me envergonho do evangelho, porque no evangelho se manifesta a justiça da fé, que leva da fé, para a fé”. O que é que isto quer dizer? Como está escrito, o justo viverá pela fé. Portanto isto é um bocado o tema, ele diz: “Os Judeus para se salvarem não bastam ser Judeus, precisam da fé em Jesus Cristo! Os pagãos para se salvarem precisam da fé em Jesus Cristo!”. Isto é o grande tema que ele desenvolve ali e portanto, S. Paulo ali diz que ou dá a entender, depois também, não só nos escritos dele, mas também no Novo Testamento que… O que é a fé?! A fé é várias coisas. A fé antes de mais é o responder interior a uma pregação que oiço, a fé vem da pregação, pois a religiosidade natural basta para me dizer que Deus existe, que Deus é bom, etc… Ou seja, isso já existia cá antes de Cristo vir ao Mundo. Então o que é que Cristo trouxe? Cristo trouxe, o complemento de uma revelação que começou com o povo de Israel, com Abraão, com Moisés, etc… E em Jesus Cristo todo este percurso atinge a sua plenitude e portanto isto na prática o que é que quer dizer? Quer dizer que, uma pessoa escutando o evangelho pode aceitá-lo ou não, mas se o aceita, essa fé nasce de escutar é uma fé incipiente. Diz S. Paulo, torna-nos justos, justifica-nos diante de Deus. Ou seja, não por eu fazer isto ou aquilo, mas pelo facto de acreditar em Jesus, Deus Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai de Jesus. Não leva em conta os meus pecados e considera-me amigo. Este é o começo … Mas a fé não é só esse começo, esse começo depois leva-nos a uma intimidade com o Senhor e mais, leva-nos a uma identificação com o Senhor, que o próprio S. Paulo diz noutro lado: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim, a vida que tenho hoje vivo-a na fé do filho de Deus, que me amou e que se entregou por mim.” Portanto este viver no Senhor e o Senhor viver em mim, isto produz obras. Jesus diz: “Quem acredita em mim fará também as obras que eu faço.”. Isto é como um casal, quer dizer… amam-se, vivem juntos, têm filhos. Portanto não têm filhos no primeiro momento, lá vêm não é? Na altura própria! E a questão do Lutero é ver isto num plano bidimensional, digamos assim… Porque a gente planta uma macieira, a macieira têm dez centímetros de altura, vais ver a macieira e dizes: “Mas isto não dá maçãs?!”. Pois, deixa que ela cresça!

 

Mas com a descrição bíblica tão forte do Céu e do Inferno, não acha que a fé em Jesus Cristo, e acreditar que a fé em Jesus Cristo é que leva à salvação, não marginaliza os bons muçulmanos, os bons Hindus, os bons Judeus, os bons Ateus?

Não… Não por uma coisa muito simples, desde o princípio os cristãos vêm em Jesus o verbo de Deus, a palavra de Deus feita carne, feito Homem. Portanto, e este verbo é portador, é o verbo criador que criou todas as coisas, mas é também o verbo que nos dá o espírito, o Espírito Santo. O Espírito Santo existe em todo o Ser Humano, às vezes não de uma forma ativa, mas passiva… Como uma energia, como uma força boa. Em Cristo nós recebemos o Espírito Santo, não apenas como uma energia, mas como uma pessoa divina que vêm viver em nós. Portanto, aí tá a noção de pessoa que é fundamental para nós. Tudo o que há de bom neste Mundo, seja feito por quem for, vem de Deus. Deus é o autor de todo o bem, seja quem for o Deus.

 

E eles podem aspirar à salvação?

É evidente que sim, quer dizer, sempre a igreja o disse… Ou seja, sempre a igreja, bem… as coisas nem sempre foram tão claras como são hoje … Porque se pegas numa palavra e a isolas do contexto a certa altura essa palavra pode-te dar uma visão muito reduzida da realidade. Foi um bocadinho o que aconteceu com uma parábola concretamente, e foi isso que motivou também a envangelização. Por exemplo, S. Francisco Xavier disse: “quem acreditar e for batizado será salvo.” Não diz que não é salvo quem não é batizado e quem não acredita. “Quem acreditar e for batizado será salvo”, portanto temos que levar a fé às pessoas, temos de batizar as pessoas, para serem salvas, etc… Para nós Cristãos, não há salvação fora de Jesus Cristo, porquê? Porque não! Agora, é evidente que se é verdade que o espírito de Deus é um só, se Deus é um só, portanto Deus ama todos com o mesmo amor. Deus não têm mais amor aos católicos do que aos muçulmanos. Ou então, é um Deus feito à nossa… à imagem do nosso egoísmo e da nossa tacanhez. Nesse sentido temos que reconhecer, Deus é católico, neste sentido tem um coração universal, não é? Portanto, penso que isso é fundamental… E portanto… Como é que essa gente se salva? Esse problema é de Deus, não é nosso! Portanto, a igreja ensina que qualquer pessoa que viva de acordo com a sua consciência bem formada, salva-se!

 

O que é que quer então dizer S. Mateus?!

Quer dizer uma outra coisa… Jesus compara o juízo final, faz uma parábola, diz: “No fim do Mundo, todos apareceremos diante de Cristo, o pastor e o juiz, ele porá as ovelhas à sua direita, os cabritos à esquerda e dirá aos da direita: Vindo bem ditos de meu pai se vêm ao reino preparado para vós porque tive fome, e deste-me de comer, tive cede e deste-me de beber.” E as pessoas perguntarão, “Mas quando é que isso aconteceu?!” “Sempre que o fizeste a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que me o fizeste.” Ou seja, que o ser cristão dá-nos um olhar, que nos faz ver Jesus Cristo presente nos outros. Sejam eles quem forem, sejam eles pessoas de quem gostamos, ou pessoas de quem não gostamos. Vemos sempre Cristo presente no outro. Isto muda em muito o relacionamento entre pessoas. Repara, no império romano, era assim que viam os pobres e os desgraçados: “Se os Deuses querem que essa pessoa esteja a sofrer, quem sou eu para me ir opor à vontade dos Deuses?” “Se eu me oponho à vontade dos Deuses, ajudando essa pessoa, posso incorrer na ira desse Deus”. Os pobres eram simplesmente tratados como lixo! Um grande filósofo Plotino, enfim, o pai do neoplatonismo morreu abandonado depois de uma vida de grande sucesso… Porquê?! Porque adoeceu e todos o abandonaram. Os cristãos… Os cristãos dedicaram-se realmente a pegar neste lixo de Roma e do império e a tratá-los com humanidade. Ou seja, os cristãos não acreditando em Deuses, mas em Jesus Cristo perderam o medo aos Deus e à ira dos Deuses e começaram a fazer o bem a toda a gente, portanto esta tradição da igreja mantêm-se, por exemplo: Têm estado a decorrer aqui em Beja um colóquio europeu de diretores de museus de tesouros das catedrais, das igrejas, etc… Ontem fiz-lhes uma participação, e entre outras coisas disse-lhes isto: “Vocês cuidam destes tesouros artísticos da igreja, mas atenção, estes não são os mais valiosos tesouros da igreja!” Todo este património, que às vezes é realmente muito bom e admirável, mas mais valioso do que isso é o evangelho, e a eucaristia, são os sacramentos, são os pobres, são os doentes, são os abandonados… Esses são os verdadeiros tesouros da igreja.

 

Deixe-me perguntar, porque a juventude sente que há uma parte da população mundial um pouco marginalizada pela igreja católica, as mulheres. Porque é que ainda não podem aspirar ao sacerdócio e ao máximo poder dentro da religião? Não acha que isso manda uma mensagem para o resto da sociedade que as mulheres não são capazes de ter poder espiritual, logo não são capaz de …

Não, não têm nada haver, repare uma coisa… no tempo de Jesus todas as religiões tinham sacerdotisas, todas. Menos o judaísmo e o cristianismo.

 

Mas acha que é algo que doutrinalmente nunca pode acontecer? Era alterar a doutrina cristã e católica, as mulheres serem sacerdotisas? Ou acha que com o tempo e com a evolução pode chegar a acontecer?

Uma macieira, achas que com o tempo e com a evolução a macieira começa a dar pinhões?!

 

Não.

Então … Repara, há uma verdade a nível dos símbolos que nós não podemos traficar…que nós não podemos alterar. Eu sou homem, não sou mulher. Tu és homem, tens barba, não és mulher. As mulheres, são mulheres, têm coisas que nós não temos, têm todos os pontos de vista… Então é menos importante ser mulher? Não. Repara, na igreja, para dizer a igreja em masculino, digamos assim, há doze apostólos, doze! Para dizer a igreja em feminino há uma mulher, que é a Virgem Maria. Ou seja, repare, o que é um padre? O que é um bispo? O que é aquele que preside à eucaristia? Aquele que desde o princípio nós vemos, é que esse fulano até veste umas roupas diferentes para desfulanisar a coisa. Portanto esse homem que está ali é Jesus Cristo que preside como cabeça, como esposo… Esposo não pode aparecer em feminino, é uma baralhação, não pode ser… Esposo é masculino! Então, quer dizer, com estes complexos todos que se têm de enfim… e com os pecado próprios de uma sociedade machista, etc… Graças a Deus as coisas têm evoluído, aqui não se trata de dar às mulheres o que é próprio dos homens. Trata-se de fazer crescer a mulher naquilo que é específico dela, da sua feminidade, e penso que o que hoje está a acontecer é que a mulher está a ser despojada daquilo que é próprio dela… da sua virgindade, da sua responsabilidade, da maternidade, porquê? Porque se criou um ideal de mulher masculinizada. Eu penso que isso é muito mau para a sociedade, e é muito mau para as mulheres. É bom que as mulheres sejam femininas, é bom que os homens sejam masculinos.

 

Mas não acha que o poder tem uma própria concepção masculina? E quando as mulheres aspiram esse mesmo poder a sua própria feminidade pode se misturar com… Quando elas tentam ter algum cargo de poder, como o poder têm uma forte componente masculina, não acha que é aí que elas podem ser vistas como a masculinizarem-se? Enquanto só estão à procura de uma emancipação total?

Eu penso que há tantos exemplos bons. Eu não sou contra o facto da profissionalização das mulheres, aliás, a sensibilidade feminina, pode trazer realmente à sociedade algo que nós homens não conseguimos dar… Nós homens somos a lei, mesmo a lei força, é isto não é?! A mulher tem graça, tem outra forma de encarar tudo… E penso que isso não é uma coisa desprezível, de modo nenhum. E penso até, na justiça, o facto de haver tantas mulheres que são juízas etc… etc… Isso é bom para a justiça, é bom para… também para medicina, etc… Agora, penso que devemos ter cuidado em ajudar as mulheres a não quererem copiar os homens, ou seja, há coisas que são próprias do homem, há coisas que são próprias da mulher … Quando digo coisas, digo a maneira de ser, a maneira de ver, etc… Tudo isso. E portanto, eu penso que as mulheres estão a ser enganadas. Penso que o feminismo é um engano.Também por aquilo que tenho visto ao longo da minha vida, como padre. Isso não quer dizer que seja por uma sociedade, portanto, que despreza as mulheres, nada disso… nada disso!

 

E agora para finalizar, em relação à sua pintura… Disse-nos que pinta para descontrair, o que é que pinta? E quando pinta? E o que é que pensa enquanto se entretém no seu hobby?

O que é que que pinto?! Olha… Isso é uma coisa antiga, de 1973 para aí… andava eu na escola de Belas-Artes, isto é uma coisa que tem andado para aqui aos trambolhões e que voltei a dar mais umas pinceladas. É uma composição despreocupada, digamos… Mas aquilo por que sou conhecido é sobretudo arte sacra, que eu tenho feito ao longo da minha vida. Como tenho uma formação técnica de pintor e tenho uma formação arqueológica, há aqui uma confluência que me permite, fazer coisas que vão além do, “eu acho que…” coisas que tenham realmente uma abertura para a comunidade, etc…

 

Senhor Bispo foi um prazer ter estado com a Rádio Ourique, foi um entrevista longa, onde ficamos a conhecer melhor a sua pessoa, a doutrina católica e tentámos mostrar aos jovens a igreja católica do século XXI. Muito obrigado, foi um prazer.

Muito obrigado também e bom trabalho.

 

Obrigado!

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