Ourique FM

Camané, Uma entrevista íntima

20/11/2016

"(...)Procurar ser o mais autentico que conseguir, não se preocupar com questões alheias, cantar com o coração, com a alma! Fazer musica com amor! "

Camané recebeu a Rádio Ourique na sua casa, abrindo as portas do que pensa, sente e se inspira. Contando numa conversa longa e prazeirosa, as vicissitudes da sua carreira e vida.

 

De trato fácil, com uma personalidade humilde, e propício a conversas longas, demoradas, profundas e reflexivas.

 

Rápido se nota o seu génio, mas rápido também se percebe a sua descomplexidade. Camané foge da presunção, quer ser um homem comum. Mas não consgue, nem pode. Afinal a sua voz tem o poder de transportar o sentimento de um povo. Camané canta a alma portuguesa. 

 

Sérgio Godinho descreve-o assim:

 

"Do Camané deve dizer-se que” não há palavras” a não ser as que exigem “silêncio, que ele vai cantar o fado”. E fica-se, de boca aberta e veneranda, em presença do novo príncipe, do plebeu mais ilustre dos nossos sentimentos." 

 

 

Silêncio exige-se então, vai-se ler o Fado. Pelas palavras de Camané.

 

 

Rádio Ourique - Boa tarde, vai estar em Aljustrel, quando? Camané -  Dia 19 de Novembro, no teatro municipal de Aljustrel, com imenso prazer.

 

 

E o que é que vai presentear o público aljustrelense? O espetáculo é sobre o disco “Infinito Presente” e vou incluir uma parte do disco. Os temas que penso ser os mais significativos do disco, mas também vou incluir temas de discos anteriores que são os mais marcantes e importantes do meu percurso.

 

 

Eu tenho uma pergunta que costumo perguntar aos artistas que vêm ao Baixo Alentejo. Acha o público alentejano um público difícil? É certo que o público alentejano aprecia muito Fado e especialmente o Camané, mas os artistas dizem que há um certo distanciamento entre o público e o artista. Alguma vez sentiu isso? Por acaso não, eu acho o público alentejano muito culto com muito bom gosto, para além disso tem uma música muito boa eu acho que eles têm uma facilidade enorme em se identificarem com músicas com profundidade, acho que é um público muito sensível. Gosto imenso! Ouvem muito, estão muito atentos. Têm muito bom gosto porque têm uma música muito boa também. Eu sou super fã do cante alentejano e de uma série de musicas e de tradição musical do Alentejo, identifico-me muito com o publico alentejano.

 

 

Mas nota alguma diferença entre o público alentejano e público do resto do país? O público alentejano tem um conhecimento melhor do Fado do que o norte do país. Se formos por exemplo ao Porto, ou mesmo acima do Porto, o público alentejano conhece melhor o Fado, eu acho sinceramente. Embora o Fado se tenha espalhado para o resto do país, tanto norte e sul. Mas o público alentejano tem um bom conhecimento de Fado e também há muitos fadistas que vieram do Alentejo, além de músicos e guitarristas. Tenho tido sempre muitos bons concertos no Alentejo.

 

 

Que emoções é que procurou retratar neste último álbum, o álbum de 2015 “Infinito Presente”? São coisas que eu não procurei, são coisas que acabaram por acontecer naturalmente quando comecei a fazer o alinhamento do disco, quando começaram surgir os primeiros poemas, as primeira letras, as coisas que foram escritas... Começou por acontecer qualquer coisa que tinha a ver com o presente, passado, e futuro. Aquela coisa do viver o presente.

 

 

Dos três tempos que me disse, o presente, passado e futuro, qual é que para si tem mais importância? É o presente! Com o futuro não é… Eu nunca fico agarrado às coisas que foram feitas, eu fico é à espera do que vai acontecer.

 

 

E como é que tenta fazer um Fado que é uma música nostálgica, que nos remete para o passado, com um espirito de presente e de futuro?  O Fado tem uma série de sentimentos, como a vida, como têm todas as canções. Porque normalmente quando se fala de Fado há sempre aquela ideia que é uma música nostálgica, que nos transporta para o passado. Não! O Fado na minha forma de pensar e de sentir é ir buscar esse passado e traze-lo para o para o futuro, como todas as músicas. Nós quando ouvimos música clássica, musicas que têm história, elas vão buscar esse passado, essa raiz, essa verdade. Mas transportam-na para o futuro. As letras que se cantam têm a ver com isso, a ideia é que as pessoas se revejam no que estão a ouvir. Nas palavras, nas histórias, em tudo. E que se identifiquem! E isso tem tudo a ver com o presente, e com o futuro. O Fado é uma música que tem um passado muito grande, é preciso ir buscar esse passado, é preciso tê-lo cá dentro, é preciso ter essa vida e essa vivência, e essa musicalidade que tem a ver com o Fado. Mas depois… O melhor está sempre para vir. Nunca fico a pensar no que fiz, ou no que deixei de fazer. Não! É sempre para a frente

 

 

Um das opiniões que tenho é que o Camané canta e retrata um bocadinho a consciência coletiva de Portugal, costuma pensar em Portugal quando faz essas abordagens? Ir buscar o passado para projetar o presente e o futuro? Onde é que se inspira? Eu penso na música! Eu ouço muita música, ouço muito Fado, mas ouço principalmente muita música. Não penso assim numa maneira muito… Não penso em Portugal. Penso no português, penso na palavra, penso na poesia, penso nas coisas que têm a ver com a língua. Mas a língua também é um reflexo de ser português, da portugalidade. No fundo o que acontece é que, não penso muito em Portugal, penso na música... penso no Fado... mas o fado também é português! Portanto acaba por ser um bocadinho natural. Por exemplo, neste disco eu não pensei muito, as coisas aconteceram naturalmente, porque foi a mesma história do presente, do "Infinito Presente", os fados começaram a falar da importância do presente e do futuro, isto é, só o presente é que é importante, portanto é importante viver o presente, e as histórias dos fados começaram a falar nisso, não estarmos agarrados ao passado no sentido em que muitos fados o fazem. Eu lembro-me por exemplo uma musica do meu bisavô que eu encontrei num disco de 1925, aconteceu por acaso, sempre ouvi falar do meu bisavô, mas eu nunca o ouvi cantar, nunca o tinha ouvido cantar. O meu pai falava nele, os meus tios, toda a gente falava no meu bisavô. Mas eu nunca o ouvi cantar, e há cerca de dois anos num programa de televisão, falei no nome do meu bisavô e um colecionador de discos de fados encontrou um disco do meu bisavô nos Estados Unidos, um disco de 1925! E deu-me esse disco e pela 1º vez ouvi-o cantar, sabia que aquelas músicas eram músicas dele, que ele tinha feito algumas músicas. O meu bisavô era da Murtosa, ainda veio com aquela influência do Fado de Coimbra para Lisboa, e fez aquela musica e eu adaptei um poema de Fernando Pessoa, por acaso esse poema de Fernando Pessoa tinha ver com essa coisa do presente, do passado, e do futuro, isto é, há uma parte do poema que diz “aqui está sossegado/ longe do mundo e da vida/ sem a culpa do passado/ até o futura se olvida” portanto, o sem o medo do futuro e de viver o presente, viver um dia de cada vez.

 

 

Quando cantou esse Fado do seu bisavô, que tempo é que mais sentiu? Sentiu a mística do passado por ser o Fado que o seu bisavô cantou, sentiu o presente porque estava a cantá-lo, ou projetou o futuro? Eu adaptei essa música porque tem imensa qualidade, adaptei um poema de Fernando Pessoa e adaptei à minha forma de cantar hoje em dia, e àquilo que nós sentimos hoje. No fundo é tentar rever-me naquilo que estou a fazer, e que as pessoas depois se revejam nessa história, e isso depois aconteceu. Depois houve outro Fado que o meu bisavô fez que era o Fado complementar, era um fado tradicional, e aí já tem uma grande influência do Fado de Lisboa, porque ele supostamente terá feito esse fado em 1919. Ainda não conhecia a música, estava escrita em pauta, e eu não sei ler musica. E só quando ouvi a música cantada é que eu percebi que gostava imenso. Aí já adaptei um poema diferente, já mais a ver com o tempo, mais uma vez, o infinito presente do tempo. E as coisas aconteceram naturalmente, porque é um poema do Frei Armando das Chagas, um poema muito antigo, mas muito atual. É um Frade a prestar contas a Deus pela forma como tem vivido a sua vida.  E nos vivemos a vidas às vezes… As nossas prioridades… Aquilo que queremos… A vida é tão curta! E damos por nós somente a pensar em coisas materiais. Temos de viver de outra maneira, tentar procurar outra maneira em que possamos ser mais felizes, sei lá! Termos uma vida mais descansada, sem estarmos centrados em nós próprios. Com isso em mente acabou tudo acontecendo muito naturalmente no disco, e depois a Manuela de Freitas quando começou a escrever também pensou muito nisso, e ao incluir um poema de David Mourão-Ferreira, um dos poetas que mais gosto de cantar, ele tinha precisamente essa frase, “Infinito Presente”. A partir daí ficou o título, e a ideia do disco.

 

 

Que poetas da língua portuguesa mais admira? Bem… Gosto muito de cantar David Mourão-Ferreira por exemplo, mas também gosto imenso de Luís de Macedo. Depois gosto não só de cantar, mas de ler, Fernando Pessoa, Rui Beldo etc…

 

 

Faz parte do seu dia-a-dia ler poesia portuguesa ou ler língua portuguesa? Não, ler leio, mas mais prosa. Poesia normalmente acontece quando ando à procura de fados . Quando comecei a pensar nos fados tradicionais em que adaptei alguns poetas portugueses, algumas letras. Tive que ler muito para perceber quais aqueles que poderiam funcionar no Fado tradicional, porque só muito poucos funcionam, por exemplo, no Pessoa são muito poucos. A maior parte da poesia foi feita para ser lida, para der dita, e não cantada. Mas acontece que em alguma poesia do Pessoa, alguma poesia do Antero, do Rui Belo, do Cesário Verde, ou mesmo do Camões, pode ser cantada. Mas são poucos poemas, e é preciso escolher bem.

 

O Camané foi um dos primeiros fadistas destra nova geração a desviar o Fado para outro tipo de sonoridades, porque é que fez isso? Eu no Fado nunca mudei, houve convites que me fizeram, participações com outros artistas… Mas na minha música, no Fado, tentei ser sempre fiel ao género.

 

 

A sua voz é sempre muito associada ao Fado…  A minha voz é do Fado e quando me convidaram dos Humanos para aquela história do António Variações, foi porque eu era um fadista, pois o António tinha um certo gosto pelo Fado. E a música dele era sempre um pouco pop com musica popular portuguesa. E acharam que eu ficaria bem naquele projeto. Eu fiz outros projetos que não fado, mas quando faço Fado, é Fado! Portanto a ideia que eu tenho é que quando faço Fado, que é a minha música, procuro toda a evolução que poderá ter, mas tem de vir sempre dentro para fora.

 

 

Mas considera positivo estes movimentos recentes na música portuguesa de pegar na música tradicional portuguesa de pegar na música tradicional e dar-lhes uma pitada pop? Eu não sei. A minha forma de estar não é essa, não acho que faça muito sentido. Os estilos musicais são diferentes, é a mesma coisa querer de repente no blues misturar pop. Ninguém nos blues com grande dimensão, faz mistura com a pop. O flamenco é a mesma história, o tango também. A ideia é que as músicas têm uma personalidade própria, e uma sonoridade própria. E a mesma coisa que querermos melhorar o café, o sabor do café… E misturamos leite. Isso deixa de ser café. Passa a ser café com leite. Portanto nós quando ouvimos Fado, temos que identificá-lo como é. Mas claro que estou aberto a novas roupagens, a tudo isso… Mas de forma que não descaracterize a música, porque o Fado tem uma característica, tem uma sonoridade, e se a perdemos passa a ser outra música qualquer.

 

 

Mas não acha que essa fusão pode valorizar a indústria musical popular portuguesa? Ou não tem influência?

É assim, eu sempre senti que as pessoas ouviam a minha música. Eu não precisei de fazer isso, mas também nunca pensei na indústria, nunca pensei na parte comercial na minha música.

 

 

No seu processo criativo pensar na parte comercial deixa o seu espirito crítico mais desligado? Sim! Fica limitado em todos os aspetos. Porque se penso nisso acabo por estragar tudo, aliás, eu se pensasse não fazia nada! Aquilo é para sentir a música… Nós interiorizamos as coisas, e de repente quando cantamos não pensamos. Ou quando se pensa nos arranjos é tentar olhar para a música, para os fados, para os poemas, e conseguir encontrar a ambiência de que se está a cantar, e não, se vai ou não vender.

 

Que emoção é que quer transmitir a quem oiça um fado seu?

Quando produz um disco e quando canta uma música o que é que espera que quem a ouve sinta? A mesma coisa que eu sinto quando oiço música. Que é tentar rever-me, emocionar-me, ter sentimento.

 

 

Tem alguma mensagem social nas suas músicas? Há sempre mensagem social, não é?

 

 

Qual é uma mensagem social que podia caracterizar a sua obra? Eu acho que é a vida, os sentimentos. Não penso numa mensagem social, mas há sempre mensagem social, há sempre pensamentos, porque a música e o Fado obriga à reflecção! Faz parte da sociedade, sentir, viver de uma maneira diferente… Tornar as pessoas mais abertas às coisas que as rodeiam. É por ai que isto acontece, mas não é algo muito específico.

 

 

Já ouvi muita gente dizer que quem é imigrante e ouve Camané sente a portugalidade quando o ouve, aceita isso? Pensa sobre isso? Já me têm dito muitas vezes, por exemplo nas tournées nos Estados Unidos. Portugueses que estão à imensos anos nos Estados Unidos, a trabalhar. São imigrantes, e eles dizem-me que, quando ouvem fado quase que choram, porque sentem uma emoção, sentem saudades, porque há qualquer coisa que tem a ver com o passado deles, mas com um sentimento que vem para o futuro. É a identidade deles musical. Não a sabem explicar, mas a maior parte deles choram, porque gostam imenso. É engraçado, não sei explicar porquê mas eu próprio quando estou fora de Portugal algum tempo a fazer viagens, e ouço uma música portuguesa, emociona-me imenso. Tenho a certeza que se estivesse dois, três anos, sem ouvir música portuguesa num país distante, sentia o mesmo. Sempre me falaram que a Amália ou mesmo outros fadistas quando cantavam lá fora, acontecia o mesmo. Mas há concertos lá fora que metade do público é português e outra metade é desses países. E às vezes há dois ou três portugueses, já tive tournées na Holanda, Bélgica, México ou até Irão onde só há um, dois portugueses.

 

Já atuou em Teerão? Sim, no ano passado.

 

 

E como foi? Foi fantástico, foi na ópera de Teerão, havia lá dois portugueses, uma senhora e o embaixador.

 

 

E qual foi a reação dos iranianos ao fado? Foi ótima, estava cheio.

 

 

E como é atuar para um país que tem pouco da cultura ocidental por estar fechado há alguns anos? Isso já me aconteceu, também em Istambul ou em Ancara, ou mesmo em países em que não havia portugueses, varias vezes me aconteceu na Finlândia, na Suécia, as pessoas são como nós quando vamos ouvir musica que não conhecemos, mas em que há uma certa curiosidade, e depois começamos por começar a gostar. Depois também acontece muito no circuito de trabalho que eu faço, muitas vezes acontece não ser o circuito da emigração. Então a maior parte é publico desses países, conhecem pouco da musica que vais apresentar. Vão pela curiosidade, e depois acabam por gostar. Às vezes vou ver concertos que não conheço a língua, desde miúdo que isso me acontece, e de repente gosto imenso da música, e identifico-me.

 

 

Enquanto artista despertar reações tão viscerais nas pessoas que o ouvem é a realização do seu projeto enquanto artista? Ou para si é mais uma força para continuar, ou é só uma consequência? Não, para mim o mais importante é que as pessoas se revejam na música que eu faço, e que se consigam identificar e emocionarem-se!

 

 

E quando isso acontece? Quando acontece é fantástico! Porque é isso que faz com que eu consiga fazer aquilo que mais gosto na vida. E é isso que me toca.

 

 

E que conselhos é que dá a um jovem alentejano que queira começar no mundo da musica e queira atingir um sucesso internacional e credibilidade na sua área como o Camané tem? É reconhecido em todo o mundo, é reconhecido em Portugal… Uma coisa rara de se combinar. Que concelhos dá a um jovem alentejano que queira seguir as suas pisadas?  É procurar a verdade e a honestidade naquilo que faz. A verdade… A autenticidade… Procurar ser o mais autentico que conseguir, não se preocupar com questões alheias, cantar com o coração, com a alma! Fazer musica com amor! Isso acaba por ultrapassar as barreiras que são as mais complicadas, mas quando se consegue tocar as pessoas ,ou quando se consegue chegar ao coração das pessoas, é a única forma de ultrapassar as barreiras da industria, ou daquelas coisas que são o fantasma de quem vive isolado. Mas uma coisa que ultrapassa tudo. A autenticidade!

 

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