Ourique FM

A história automóvel

13/11/2017

Guilherme Vilhena Martins

É o que está entre um lugar e outro que mede o tempo. O tempo mede o espaço mas não é sem ele. A distância mede-se em tempo, mas o tempo remete sempre ao lugar: o que há, o que falta, o que é. A lentidão deve ser medida não relativamente à demora, mas à intenção. O tempo não é, portanto, pouco nem muito - é imenso ou curto, consoante a tenção. 

 

O cale é uma vírgula no caminho, como o cansaço é travessão de coerência. Ir implica saber a demora, medi-la com o corpo, do pó à ferida. Não foi por acaso, mas à luz disto, que se montaram cavalos, inventaram carroças e carruagens, se construíram carris e locomotivas e se resumiu num epitáfio os que por aí até aqui vieram: o automóvel. Do passo à roda e ao vapor, o princípio mantém-se. Ir, montar o caminho. E assim se multiplica: o mesmo ir, mais curto, tão grande como sempre. São as botas sujas nos mesmos sítios, ainda que os cavalos se multiplicam às centenas, em válvulas e rotações. Em tudo isto, o espaço encurta; enquanto o tempo fica. 

 

E subjaz outra demora: a que se insinua quando o vazio é preenchido, ou seja, a da tenção. Subjaz na noite sem silhueta, quando os faróis são cápsulas sozinhas em estradas sem candeeiros; subjaz nas cortes vazias em que genealogias acabaram em migração; subjaz no latir em eco dos cães entediados, nas lagoas secas, nos cemitérios cheios, na desconfiança nocturna ao postigo, no álcool sozinho sem banda sonora. Subjaz no tempo que está entretanto - entre os que foram e os que ficaram, os que haviam de ser e os que são, os das botas, os que sabem ir, os que sempre se demoram e demoraram imensamente. 

 

A história dos automóveis no Alentejo não é a do desenvolvimento da máquina, mas a da relação humana com o tempo. Não se trata de ir mais depressa, mas de ter tempo com mais espaço e, ainda assim, devagar. Porque o tempo não é senão a medição intencional, com tudo o que isso arrasta. 

 

 

Pois que, falando de automóveis, não se pode omitir o que eles cobrem, que não é uma estrada, mas o que há a preencher. E, mais ainda, como eles andam, em fervor ou sem pressa, no mesmo tom pré-gramatical de sempre. Aquele que era já o dos cavalos a fazer a corte, o dos sorrisos graves e resolvidos no namorisco, o do relaxamento no bailarico e nos dias sozinhos à lavra. O que subjaz: o do suor honesto sobre bronze em ferida e a calma respectiva, o sol que não é luz sem esforço, a lua obrigatoriamente cúmplice - o ermo, o escuso, o recôndito. Aquele que se dança ao ritmo lento da terra a comer os pés: o do temor sem tremor.

 

 

Na densa literatura da história automóvel escreve-se a sublinhado que o tempo alentejano não é vagaroso - tem apenas mais espaço. Tem o espaço que o temor espalha na paisagem, a resolução vigorosa de não aceitar a distância. No fundo, o silencioso mas constante tumulto de não repousar sob algo relativamente ao qual se é pequeno: a imensidão do pó.

 

Torre do Relógio - Mértola

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