Ourique FM

A minha nota final

09/11/2017

Francisco Themudo de Oliveira

Têm dito por aí que a estratégia e o taticismo sobrepõem-se sempre à coesão de uma ideia. Pego nesse mote, e em jeito de despedida da minha participação na Rádio Ourique, utilizo este texto para explicar a estratégia que cimentou as ideias por trás deste projeto.

 

A ação implica estratégia

O que me levou a correr metade do mundo para voltar à minha terra natal, que me fez cruzar 11 282 quilómetros e abandonar a vida que tinha, foi a realização de que uma consciência global não pode existir sem ação local. Embora estivesse a contribuir com o esforço do meu trabalho para a educação de crianças num país asiático, sentia no meu âmago que estava a abandonar os problemas da terra que me viu crescer. Identificava vários, refletia sobre eles, mas não agia. Não podia, estava longe.

 

As problemáticas que identificava não são novas nem novidade para ninguém. Os efeitos das alterações climáticas na nossa economia, a perda demográfica e a subsequente falta de jovens, o chamado êxodo rural, e por último, as dificuldades do interior em aproximar-se do desenvolvimento do litoral.

A realização de que era necessário agir sobre estas problemáticas foi um constante ponto de honra que norteou a minha ação na persecução de uma estratégia para a Rádio Ourique.

 

Posto isto, começa a melhor parte, a ação. A ação e a aplicação prática das ideias sempre foram o gerador de mudança. Como contribuir para a resolução de um problema? Que passos tenho de tomar para operacionalizar essa vontade? São essas as perguntas que se impõem, e para as responder é necessário uma boa dose de estratégia.

 

O raciocínio inicial foi que esta região não tinha um veiculo de comunicação moderno, em todas as plataformas, que conseguisse dar voz aos anseios e dificuldades que existem no nosso território. Construir uma plataforma online, criar um site, ter voz ativa nas redes sociais, fazer um estúdio em Ourique e começar a gerar alcance foi o primeiro passo. Criar uma caixa de ressonância capaz de dar voz as problemáticas que em cima enunciámos. Isso foi feito e não existia antes. A Rádio Ourique não tem um ano, mas a rádio em Ourique sim, e é bom não esquecer isso.

 

Construida essa caixa de ressonância, era tempo de começar a agir sobre as problemáticas que me deixavam sem sono no outro lado do mundo. Agora estava na minha terra, tinha mecanismos, era o tempo de agir.

 

A ação é o resultado da aplicação prática de ideias

O primeiro ato (e o melhor, diga-se de passagem) foi contar com colaboração. O Rafael Almeida afigurou-se como a melhor solução. Um espírito livre, sempre crítico, incansável, criativo e louco q.b. Sem ele a Rádio Ourique não era o que está hoje, um órgão de comunicação moderno, irreverente e influente nas plataformas online. Ele era o cérebro por trás de toda a complexidade técnica. Com orçamento 0, duas vontades e duas cabeças, fez-se tudo o que se queria fazer. Sem lamentos e com espírito de sacrifício. Para um sítio que chora a perca de jovens, passar a contar com dois que viviam no estrangeiro e deixaram tudo para abraçar este projeto não é com certeza uma má ação para inverter este êxodo que aflige a nossa região.

 

Os temas com que me debruçava passaram a ter duas cabeças a pensar sobre eles. E a agir sobre eles. Entrevistámos o Presidente da República, o Primeiro-Ministro, o ex Primeiro-Ministro e líder da oposição, o Ministro da Agricultura, todos os deputados da região, quase todos os Presidentes de Câmara e candidatos a esse cargo no Baixo Alentejo. A todos lhes perguntei sobre estes temas. E todos me responderam. Perguntei sobre a seca, a falta de água, a perda demográfica, a falta de infraestruturas, e linhas de ação para mitigar estes desafios. Sobre a seca e as alterações climáticas poucos órgãos de comunicação social falaram ou questionaram quem de direito. Nós fizemo-lo precocemente, e quando os outros o faziam até nos roubavam o trabalho. A RTP utilizou indevidamente um fotografia nossa em pleno telejornal!! Mas nem tudo foi direcionado para os tempos modernos. Em colaboração com um fotografo premiado retratámos em fotografia e voz as gentes da Serra de Santana, essa incursão mais artística teve sucesso e a partir dessa ideia recebemos convites para replicar o conceito e expor na Ovibeja, e hoje pode ver o resultado disso mesmo no Centro da UNESCO em Beja (até dia 13 de novembro). Foi uma conjugação de sucesso entre a sabedoria da experiência e tradição, retratada por jovens em plataformas contemporâneas. Tentámos fazer pontes entre a tecnologia do “litoral” e a tradição e sabedoria do “interior”. Esse trabalho foi o melhor exemplo.

 

Outro projeto que nos encheu a alma foi receber 90 jovens do concelho de Ourique durante o Verão e com eles produzir, escrever e realizar um noticiário sobre os assuntos que eles mais se preocupavam. Vimos jovens a empolgaram-se na resolução de problemas, a quererem ser ativistas, a terem duvidas editoriais e a fazerem! A jogarem as mãos à obra com vontade, sentido de dever coletivo e uma surpreendente capacidade técnica para as tecnologias digitais.

 

Logo, a aplicação prática das ideias implica estratégia

Volvido um ano, depois de milhares de notícias, centenas horas de vídeo, e dias a fio de estratégia: Temos um estúdio de rádio em Ourique, alcançámos meio milhão de visualizações de vídeo, 250 mil visualizações no nosso website, entrevistámos quase todos os órgãos de soberania do país e da região, depois de termos trabalhado com jovens e menos jovens, de nos termos batido por temáticas em que acreditamos, chegou a hora de passar o lugar a outro. Ninguém dura para sempre nos cargos e todos tiram conclusões (salvo uma ou duas aves raras). É o tempo da Rádio prosseguir com a batuta do Rafael e da Manuela, e continuar o seu caminho. Eu vou somente ser um espetador atento.

 

É isso que me move, aplicar as ideias para que elas passem a ser uma realidade. Quem diz o oposto é porque somente se importa com a aparência dos seus pensamentos e não com a utilidade deles. Os purista detestam compromissos, meios-termos. Não percebem que a força de uma ideia depende da sua operacionalização. Foi isso que tentei fazer na Rádio Ourique, e que vou continuar a faze-lo durante toda a minha vida. Começo um novo capítulo, uma etapa de responsabilidade, e sempre com o mesmo objetivo.

 

Mas não queria terminar sem uns agradecimentos especiais. A quem ajudou a Rádio Ourique nesta caminhada de um ano. Ao João Carlos Batista, que foi a alegria das manhãs locais, que com a sua personalidade assertiva, cumpridora e frontal, mas sempre muito bem disposta, nos punha todos na linha. Um obrigado ao Miguel Ventura, que na execução de um estágio profissional se transfigurou num verdadeiro repórter. Ligava e pressionava as forças vivas do distrito. Insistia por histórias e tinha um sentido de missão que nunca vou esquecer. À Manuela Sabino, que foi quem sempre teve um sentido de responsabilidade superior. Que nos mantinha no sítio e punha a Rádio a andar com um toque muito mais profissional e feminino. Que nos organizava a agenda, e não por menos vezes a cabeça. Ao João Nuno Rodrigues por ter sido o primeiro a ter aceite contribuir para a Rádio, que organizou e coletou as músicas e muito me ajudou a puxar a alavanca inicial, depois e passado uns meses, o João transfigura-se e em conjunto com o Filipe Marques produzem um programa de culto em que todas as quintas-feiras o hip-hop clássico era a sonoridade que se ouvia por essas planícies fora. Ao José Guilherme Barbio que sempre me aturou durante horas enquanto eu me perdia em duvidas existenciais, ou me interrogava sobre as duvidas técnicas , que teve o domingo à noite para nos levar numa viagem sobre o som do jazz,e sempre apoiou este projeto desde a primeira hora. Ao Henrique Guerreiro, que durante toda a sua vida ouviu as minhas inquietações como ninguém, com quem debati ferozmente todas as minhas convicções. O Henrique, aquele rapaz que saiu de Ourique para estudar em Cambridge. Tinha tanta coisa a dizer sobre ele, mas o valor das suas ações diz tudo. Ahh, talvez seja conveniente dizer que nas primeiras horas do site da Rádio Ourique ele teve instantaneamente 13 mil visualizações com o seu retrato perfeito e poético do que significa ser Alentejano, nunca ninguém chegou perto do numero dele em crónicas escritas. Ao Diogo Soares, com quem viajámos pelo mundo à procura das suas sonoridades mais especiais. Todas as quartas feiras ele guiava-nos pela sua paixão, a música, a música do mundo. Não esquecer também o tempo em que o Diogo tinha dois trabalhos, em pleno verão, e era incansável na ajuda que nos dava. Compunha músicas para todos os projetos que necessitavam, acompanhava sempre o último a sair, e não poucas vezes foi o primeiro a chegar. Ao Marc Wonnink, por ser aquele meu amigo alentejano de coração, holandês de aparência, complicado no feitio, genial no intelecto. Ouviu-me horas a fio, ajudou-me uma quantidade de vezes infindáveis, acompanhou-me por esse mundo fora. Tem alma de artista, e artista o é. Ao Vítor Encarnação, por ser o colaborador mais incansável, que se aventurou num registo por onde nunca tinha navegado e se excedeu. Entrevistas sublimes, de grande sensibilidade e profundas. Todos os domingos à noite eram uma viagem pelo mundo de sensações de quem se aceitava sentar à mesa com o professor, um verdadeiro homem com que se pode discutir ideias, e nunca confundir isso com caráter. Ao Gonçalo Valente e Henrique, e ao Marco Rego, por serem a máxima expressão da liberdade de expressão em Ourique. Por discutirem abertamente, desempoeiradamente e apaixonadamente política em fórum aberto no espaço público. Por recusarem tabus, e por darem o seu contributo cívico sem pensar duas vezes. Ao Vítor Rodrigues e ao Nuno Alcobia. Ao primeiro pelos seus conselhos, e pelo seu brio na seleção musical que fazia todas as segundas feiras, o fado português tinha uma hora na Rádio Ourique de fazer inveja a qualquer Rádio que se interesse pelo género, ao segundo pelas suas eloquentes críticas de cinema em voz e texto.

Há muita gente a quem não consigo agradecer pelo nome, porque o texto já vai longo, e o leitor se ainda se aguentar a ler, está a implorar para terminar, não consigo é não faze-lo sem dar um beijinho especial de obrigado à minha mãe, pai e irmão. Por me ouvirem, aconselharem, pela ajuda que me dão, pelo que sofrem, pelo que resmungam, e por tudo o que compreendem e não compreendem. Por serem os primeiros a ouvir, os primeiros a criticar, mas os primeiros a ajudar. Por fim ao maior motivo disto tudo. Aos meus avós. Porque casa não é onde está o coração, é onde mora a história de cada um. A minha história começa com eles, e eu faço questão de continuar a escrever as linhas que eles me deixaram

 

Foi o prazer de uma vida ter feito parte deste projeto, agora é tempo de deixar a criatividade do Rafael sem restrições e tenho a certeza absoluta que se irá superar e exceder.

 

O meu nome é Francisco Themudo de Oliveira, e esta é a minha nota final.

 

"A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim"

António Variações - A culpa é da vontade

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