Ourique FM

O que é que a Eurovisão 2017 tem em comum com o Euro 2016?

17/05/2017

Francisco Themudo de Oliveira

Dois eventos à escala europeia em menos de um ano coroaram Portugal como vencedor. O que têm em comum?

 

Têm em comum pertencerem ao imaginário coletivo nacional durante anos. Durante gerações, muitas velas de aniversário foram mordidas pedindo a vitória de Portugal nestes dois eventos como desejo. E durante gerações o queixume e a amargura de nunca termos vencido toldaram a nossa visão sobre o país em que vivemos. Estávamos em pleno na União Europeia, na moeda única mas nunca tínhamos surgido perante a Europa como vencedores.

 

Éramos sempre aquele pequeno país que se contentava com vitórias morais, em que o diploma de participante já sabia a vitória.

 

E não foi por falta de tentativa. Enquanto país vibrámos com “A Desfolhada” de Simone de Oliveira, ou com os golos de Figo e Rui Costa, mas nunca era suficiente para vencer. Faltava algo…

 

E isso menorizou-nos perante o resto da Europa e connosco mesmos.

 

Não quero com isto dizer que estes dois eventos sejam sinónimo de riqueza, ciência ou desenvolvimento. Mas são indicativos da auto-estima nacional. E ela estava em baixo, nunca tínhamos ganho, nunca fomos favoritos, e sempre pareceu que a afirmação nacional estava longe, independentemente das velas que se morderam a desejar isso mesmo.

 

Mas de uma assentada só, tudo mudou. Quem há um ano atrás diria que Portugal se sagrava Campeão Europeu de Futebol, e vencia a Eurovisão? Ninguém é assim tão confiante para desafiar anos e anos de insucesso.

 

Mas aconteceu! Já festejámos, rimos e chorámos. Vimos exaustivamente o golo do Éder, a canção de Salvador Sobral. Partilhámos os vídeos, assistimos às horas exaustivas de cobertura televisiva e o nosso ego aumentou. Vencemos na Europa. Somos um país capaz de ganhar às grandes nações europeias. Nós também somos um grande nação europeia! Culturalmente e desportivamente. Por fim, veem-nos como tal. De Lisboa a Berlim, passando por Praga, Londres, Roma, Estocolmo e Madrid.

 

Mas afinal, o que têm estes dois momentos de exaltação nacional em comum?

 

Já vimos que a ânsia de os vencer já vinha desde há muito. Mas há algo muito maior que une estas duas vitórias. E o que as une são os vencedores. A idade e geração dos vencedores.

 

A juventude portuguesa quebrou a barreira que fazia de nós perdedores e pôs Portugal a vencer. Os passes de Renato Sanches, com 19 anos, aproximaram Portugal da baliza, a voz de Salvador Sobral, com 27 anos, emocionou a Europa, a rapidez de Raphael Guerreiro, com 23 anos, agitou a alas de Portugal, a eficácia de Andre Gomes, com 23 anos, fez-nos ter mais bola. E podia continuar por mais linhas a descrever os heróicos feitos destes portugueses e afirmar a sua jovem idade.

 

E que conclusão podemos tirar enquanto país destes dois troféus? Esta geração, a geração a quem é difícil comprar casa, ter um trabalho estável, a geração que tem de emigrar para ter um futuro risonho profissional é a geração que ganha, finalmente, ansiados troféus. É esta “geração rasca” que mudou a nossa imagem de perdedores para sermos vistos aos olhos da Europa como um país cool, fresco, inovador e artístico.

 

Não podemos deixar que estas vitórias se esgotem nos pontapés na bola e nas cantorias. Porque se temos cantores e jogadores de futebol de excelência também temos jovens professores, jovens artistas, jovens políticos e jovens cientistas de excelência!

 

Se o país quer vencer, e afirmar-se na Europa em outras áreas que não a música e o futebol, apostem nesta geração vencedora! Ponham os jovens em lugar de destaque e não os desdigam. Não os façam emigrar, façam deles professores, façam deles políticos, façam deles economistas, façam deles tudo o que eles quiserem ser!

 

Num mundo cada vez mais global, não deitem fora a geração portuguesa que vence no mundo global.

 

Porque se há lição a tirar do Euro 2016 e da Eurovisão é que os jovens estão aí, a vencer, e mais importante que tudo, estão a vencer por Portugal!

 

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